Plano de Recuperação de Desastres¶
Plano de recuperação de desastres é o documento que responde, antes do incidente, a duas perguntas que ninguém consegue responder bem no meio dele: quanto de dado podemos perder e em quanto tempo precisamos voltar. Todo o resto — topologia, replicação, backup, custo — decorre dessas duas respostas.
RPO mede dado perdido; RTO mede tempo parado. São números de negócio, não de infraestrutura.
RPO e RTO¶
- RPO (Recovery Point Objective) — o quanto de dado é aceitável perder, medido em tempo. RPO de 5 minutos significa aceitar perder até 5 minutos de transações.
- RTO (Recovery Time Objective) — quanto tempo o serviço pode ficar indisponível até voltar a atender.
Os dois têm preço. RPO zero exige replicação síncrona, que cobra latência em toda escrita. RTO de segundos exige capacidade ociosa na outra região. O trabalho de arquitetura é encontrar o ponto em que o custo do risco e o custo da proteção se cruzam.
| Nível | RPO típico | RTO típico | Arranjo |
|---|---|---|---|
| Backup restaurável | Horas | Horas | Backup fora do site, restauração sob demanda |
| Réplica assíncrona | Segundos a minutos | Minutos | Réplica quente na outra região, promoção manual ou assistida |
| Réplica síncrona entre regiões | Próximo de zero | Dezenas de segundos | Quórum entre br-sp-1 e br-sp-2, promoção automatizada |
| Multi-escrita distribuída | Zero | Sem interrupção de escrita | CockroachDB com três domínios de falha |
Cenários cobertos¶
Um plano que só prevê "o datacenter pegou fogo" cobre o cenário mais raro e ignora os frequentes.
| Cenário | Frequência | Resposta |
|---|---|---|
| Falha de disco ou de nó | Comum | Réplica assume; nenhuma ação humana |
| Falha de host ou rack | Comum | Anti-affinity garante que o quórum sobrevive |
| Corrupção lógica / erro humano | Comum | Restauração pontual (PITR) — replicação não ajuda aqui |
| Falha de rede entre regiões | Ocasional | Fencing e quórum evitam split-brain |
| Perda de uma região inteira | Rara | Failover para a região sobrevivente |
| Ransomware / exclusão maliciosa | Rara, grave | Backup imutável com retenção protegida |
O desastre mais comum é humano
Na prática, o incidente que mais destrói dado não é a queda do datacenter — é o comando errado, o deploy com bug e a exclusão indevida. Por isso backup com PITR faz parte do plano de DR, não é um assunto separado.
Estrutura do plano¶
O plano é um documento operacional, não uma apresentação. O que ele contém:
- Inventário — sistemas, bancos, dependências e criticidade de cada um.
- RPO e RTO por sistema — nem tudo precisa do mesmo nível, e tratar tudo como crítico encarece sem proteger mais.
- Critério de declaração — o que caracteriza desastre e quem tem autoridade para declarar. Sem isso, a primeira meia hora é gasta decidindo se é hora de agir.
- Procedimento de failover — passo a passo executável, com comandos, não com princípios.
- Comunicação — quem avisa clientes, equipe e, quando aplicável, autoridades.
- Procedimento de failback — como voltar, que é a metade esquecida da maioria dos planos.
- Registro do exercício — data e resultado do último simulado.
Failover entre regiões¶
As duas regiões da InteSys são brasileiras e ficam na região metropolitana de São Paulo — br-sp-1 (Cirion SAO1) e br-sp-2 (Equinix SP3) — interligadas por links Lan2Lan ou túneis criptografados. A latência entre elas permite replicação síncrona, o que torna viável RPO próximo de zero sem sair do país.
Sequência de failover:
- Detectar — mais de um observador confirma a perda. Um observador único não decide; falha de rede momentânea não é desastre.
- Declarar — a pessoa com autoridade declara, segundo os critérios escritos.
- Isolar (fencing) — o primário antigo é impedido de aceitar escrita. Sem isso, dois primários corrompem os dados.
- Promover — a réplica mais avançada da região sobrevivente assume, após verificação de posição de replicação.
- Redirecionar — o proxy passa a apontar para o novo primário; a aplicação mantém o mesmo endereço.
- Verificar — sanidade dos dados, latência e taxa de erro antes de declarar o serviço restabelecido.
- Comunicar — status para dentro e para fora, com estimativa de normalização.
Failback¶
Voltar é uma operação planejada, nunca urgente:
- reconstruir a região recuperada como réplica da atual;
- sincronizar e aguardar lag zero;
- escolher uma janela de baixa carga;
- executar a troca controlada, com o mesmo procedimento de fencing;
- confirmar que replicação, backup e alertas voltaram ao estado normal.
Não há pressa para o failback
Se a região sobrevivente está atendendo com desempenho aceitável, o retorno pode esperar a causa raiz ser corrigida. Failback apressado costuma gerar o segundo incidente.
Simulados¶
Um plano nunca executado é uma hipótese.
| Exercício | Frequência | O que valida |
|---|---|---|
| Failover em ambiente de teste | Trimestral | O procedimento está correto e atualizado |
| Restauração completa cronometrada | Semestral | O RTO acordado é real |
| Failover controlado em produção | Anual, em janela | Que o plano funciona com dado e tráfego reais |
| Revisão de contatos e autoridade | Semestral | Que as pessoas do plano ainda são as certas |
Cada exercício termina com um relatório: tempo medido, desvios do procedimento e correções aplicadas ao runbook.
Soberania de dados no plano de DR¶
O plano inteiro é executado dentro do Brasil. Réplicas, logs, backups e o destino do failover ficam em br-sp-1 e br-sp-2, sob jurisdição brasileira e sem transferência internacional de dados pessoais.
Quando o cliente pede uma cópia de contingência em outro país — exigência corporativa ou isolamento geográfico do backup — ela é configurada em volume criptografado, com a transferência internacional documentada no desenho da solução. É decisão do cliente, nunca padrão da plataforma.
Páginas Relacionadas¶
- Backup e Restauração — A camada que cobre erro humano e corrupção
- Replicação — O mecanismo por trás do failover
- Administração — Rotinas que mantêm o plano executável
- MySQL Multi-Região · PostgreSQL Multi-Região · CockroachDB
- Datacenters InteSys — br-sp-1 e br-sp-2